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Direção colorada teria que repor camisa 9

Para o folclore da aldeia as frustrações com Ronaldinho e Guerrero podem ser comparadas. Para o provincianismo rotineiro, na terra em que mais vale espetar o rival com alfinete enferrujado do que ganhar um título representativo, tudo bem. É um ótimo assunto para o bar da esquina, o faroeste das redes sociais, ou os memes de internet. Mas na realidade, numa leitura mais profunda e com razoável dose de equilíbrio incomum nesta rivalidade, uma história nada tem a ver com a outra.

Ronaldinho não quis jogar no Grêmio. Guerrero não pode jogar no Inter – por enquanto.

Não isento aqui a direção colorada da expectativa que gerou a chegada do peruano, a acelerada venda de camisas, a empolgação, agora adiada em oito meses. Se persistir a punição, Guerrero só voltará a jogar próximo às finais do Campeonato Gaúcho. Ou seja, praticamente no Brasileiro de 2019. Que não se esconda que isso gera enorme frustração e também certo constrangimento. Mas é só por se tratar de um grande jogador que o assunto ganhou tamanha dimensão. E, como escreve aqui um jornalista que apostava num bom rendimento do atacante, então digo que esta ausência é um prejuízo ao time. Odair ganharia muito com Guerrero à sua disposição. Diminuir este prejuízio é diminuir o tamanho da contratação.

Frustração no dia do anúncio. Foto esporte.uol

Mas comparar este negócio adiado com a tentativa gremista de repatriar Ronaldinho Gaúcho, em 2011, escancara o nosso apequenamento rotineiro, a necessidade permanente de cutucar o rival sejá lá com o que for. Pode ser por uma derrota dentro de campo, em jogo-treino, ou porque a candidata foi desclassificada no Rainha das Piscinas (lembram do concurso?). Não interessa. Se a candiata escorregar melhor ainda, afinal, ela veste maiô azul ou vermelho. Quanta tacanhice. Nosso cérebro não consegue produzir nada melhor…então vamos alfinetar.

Nosso comportamento é quase antropofágico, convenhamos. Se eu comer um pedaço do outro fico mais forte!

Nem chaveiro compraria deles

Observe, prezado leitor. Ronaldinho foi o maior jogador de futebol produzido no Rio Grande do Sul. Entenda-se produzido como nascido na aldeia. E nascido praticamente no Estádio Olímpico. Ganhou quase tudo que disputou. Campeonato Espanhol, Italiano, Champions, Libertadores, Copa América, Copa do Mundo e dezenas de prêmios individuais, de todos os tamanhos. Por duas vezes foi eleito o melhor jogador do mundo – em 2004 e 2005. Só não ganhou Campeonato Brasileiro, Francês e Mundial de Clubes. Seu futebol pode ser comparado ao de Messi. Seu caráter não sei com quem pode ser comparado – nem com o que! E suas atitudes foram repugnantes. Talvez também por isso a carreira tenha tido final melancólico.

Mas seu futebol foi tão grande quanto alguns desvios cometidos. Em 2001 traiu o Grêmio, onde foi formado e com quem sua família tinha laços estreitos, para jogar no PSG. Em 2011 o clube tentou recontratá-lo, passando por cima de uma relação hostil, nada amigável com grande parte da torcida. O negócio foi encaminhado, mas horas antes do anúncio oficial Ronaldinho assinou contrato com o Flamengo.

Seria grande acréscimo ao time de Odair

Ronaldinho hoje precisa andar com guarda-costas em Porto Alegre. E sua família também. Não apenas pela insegurança da capital gaúcha. Mas também – e talvez principalmente – pela gigantesca rejeição que os gremistas criaram por tudo que se relacione com a família Assis Moreira. Se ele contrariar sua índole e abrir uma casa de doação de dinheiro em Porto Alegre, quebra!

O que esta situação Ronaldinho-Grêmio tem a ver com Guerrero-Inter? Nada. Absolutamente nada. As duas histórias são tão semelhantes quanto a estátua da LIberdade e o Cristo Redentor. São dois jogadores e dois clubes. São duas estátuas. Colocadas em contextos completamente diferentes, com histórias completamente diferentes.

Mas se você prefere o alfinete enferrujado…fique à vontade!

(Foto da capa: R7)